Catmandu vive dias de tensão e violência sem precedentes. Após uma semana marcada por incêndios em prédios do governo, confrontos com a polícia e dezenas de mortes, o presidente do Nepal, Ram Chandra Paudel, anunciou nesta sexta-feira (12) a dissolução do Parlamento e convocou novas eleições para março de 2026.
Em meio ao caos, a escolha da nova primeira-ministra interina aconteceu de forma inusitada: em uma votação informal realizada no Discord, aplicativo de comunicação usado originalmente por gamers, que se tornou o principal centro de articulação da chamada "Geração Z" nepalesa. Mais de 100 mil jovens participaram do servidor que organizou protestos e indicou o nome de Sushila Karki, de 73 anos, ex-presidente da Suprema Corte, para liderar o país até as eleições. O gabinete da presidência confirmou a escolha no mesmo dia.
A nomeação ocorre após a renúncia do então premiê K.P. Sharma Oli, que deixou o cargo na terça-feira (9), sob forte pressão popular. “Minha saída é um passo para uma solução política”, afirmou Oli. A renúncia, no entanto, não foi suficiente para conter a revolta: manifestantes invadiram e incendiaram o Parlamento e a sede do governo, além de casas de ministros e ex-primeiros-ministros.
De acordo com a Reuters, o número de mortos nos protestos subiu para 72 e mais de 2,1 mil pessoas ficaram feridas. Dois aeroportos foram danificados e o principal terminal internacional de Catmandu precisou ser fechado devido à fumaça dos incêndios.
Redes sociais e violência política
O estopim das manifestações foi o bloqueio de redes sociais como Facebook, Instagram, YouTube e X, imposto pelo governo na semana passada sob alegação de combate a fake news, fraudes e discursos de ódio. Jovens foram às ruas com o slogan “Bloqueiem a corrupção, não as redes sociais”, e a repressão inicial da polícia intensificou os atos.
A violência escalou rapidamente. A casa da ministra das Relações Exteriores, Arzu Rana Deuba, foi invadida, e ela e o marido, o ex-premiê Sher Bahadar Deuba, foram agredidos. Em outro ataque, manifestantes atearam fogo à residência do ex-primeiro-ministro Jhala Nath Khanal com sua esposa dentro; ela sofreu queimaduras graves, segundo o New York Times.
Exército nas ruas e toque de recolher
Diante da escalada, o Exército assumiu a segurança pública na capital e impôs toque de recolher em áreas estratégicas, incluindo a casa presidencial. O Ministério da Saúde pediu à população que doe sangue para ajudar no tratamento dos feridos.
Um país à beira do colapso
O Nepal enfrenta sua pior crise política desde o fim da monarquia em 2008. A instabilidade econômica e o desemprego crônico têm levado milhões de jovens a buscar trabalho no exterior. A escolha de Karki, única mulher a ter presidido a Suprema Corte, é vista como uma tentativa de restaurar a confiança popular e preparar o país para um novo ciclo político.
Agora, a expectativa é que a nova líder consiga pacificar os protestos e conduzir o Nepal até as eleições de 2026 sem novos episódios de violência.




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